domingo, 7 de dezembro de 2008

Meu quarto.
Não parece quarto, parece quadro.
É lá que a minha vida é feita. As paredes contam histórias antes de anoitecer. Pego no sono profundo como o mar, ao som das músicas que meu rádio banguela canta prá mim.
Uma cama de dois, grande e acolhedora como um floco de nuvem. Da janela lateral vejo o céu caindo sobre os telhados do meu aconchego, vejo a lua banhando os rostos das paredes; uns sorrindo outros comendo, poses esquisitas.

Em cada porta do meu guarda-roupa, uma estrela como as do céu, como olhos de tigre brilhando, zelando por mim.
Meu quarto é como um lago, um lago de livros, um lado de filmes, de música, de roupas, de pessoas. Um lago de contos; os meus contos. Um lago de encantos; os meus encantos. Um lago de tranqueiras; as minhas tranqueiras.

Meu quarto, meu parceiro de dança nos dias tediósos. Ligo o ventilador sujo em cima da mesinha de frente para o meu leito. Peço minha música favorita no CD e ele (o rádio) canta enquanto eu testo a gravidade em minha cama-elástica improvisada: a cama.
A cada pulo uma olhadela pela janela, eu vejo o sol subindo e descendo do muro da varanda.
Lá pelo meio da tarde, o sol bate em cheio no meu "guarda-roupanga", óptimo momento para ver a minha sombra dançar.

Meu quarto, meu cumplisse, meu segredo. Ele guarda o meu oculto. Meu diário vivo.
Debaixo da cama não tem monstro, não. Pelo contrário. Debaixo dela tem um Palude onde vivem Ondinas, as ninfas das águas. Há um Olmo, com o chão coberto por Petúnias.
Me deito e fico com os meus devaneios girando sobre mim.
Eu faço parte dele, ele é uma parte de mim, como se fosse água [ocupa 90 e tantos por cento do meu corpo, da minha mente, meu coração, minhas vontades.
Prá onde for carrego um pedaço dele comigo: uma foto, um CD, um livro ou mangá, o travesseiro, uma muda de roupa prá eu plantar em mim.
Jamais me esquecer, sempre me lembrar, a cada jesto meu, do meu refúgio, minha caixinha de bujingangas, meu quadro, meu quarto.
Minha colcha; minha concha..cada vez que entro nela, um novo sonho produzido, uma utopia confeccionada como pérolas.
Meus baús:minhas relíquias, não uso porém, não me desfaço. Apenas me apego.
São meus móveis os meus amigos; dou nomes, converso, troco idéias, dou bronca...
Meu cabideiro, uma figueira frutuosa. As toalhas coloridas são minha Aurora Boreal.

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